Sessão de
autógrafos acontece nesta terça-feira (25), a partir das 19h, na Livraria da Travessa
Leblon, no Shopping Leblon
As fontes de quem se
dedica ao estudo da vida política do país são, principalmente, arquivos,
jornais, revistas, relatos de testemunhas e dos próprios protagonistas. O livro
O Outro Lado do Poder: a História da
Política Brasileira Pela ótica das Prostitutas, porém, traz um corte
incomum mas não menos revelador, ignorado em pesquisas, provavelmente por
preconceito ou juízo de valor. O jornalista Sílvio Barsetti se
debruçou sobre a história recente do Brasil e apresenta o universo do poder pela
ótica da prostituição que gravita em torno dele, e vice-versa.
Com refinado humor,
Barsetti revisita bordéis frequentados por presidentes e cabarés no entorno da capital
federal, joga luz sobre as festas de arromba animadas por parlamentares e
lobistas à beira do Paranoá, e traz à tona eventos em hotéis arrendados para
celebrar contratos milionários com o poder público. São todos episódios reais,
que reforçam o tão decantado caráter afrodisíaco do poder.
Ambientado boa parte em
Brasília, O outro lado do poder descortina o papel das agenciadoras do
prazer e desvenda o funcionamento da indústria do sexo no universo político. Há
fatos protagonizados por notórios conquistadores do primeiríssimo escalão (Vargas,
JK e Itamar, entre eles), por figuras insaciáveis, não menos importantes, como
Jânio Quadros e por nomes não tão conhecidos.
Autor de “A Farra dos
Guardanapos – O último baile da era Cabral”, um dos livros mais elogiados do
país em 2018, Barsetti passou mais de dois anos fazendo pesquisas e entrevistas.
O resultado é um livro saboroso, que reúne um conjunto de casos surpreendentes
e pitorescos; um mergulho no lado menos conhecido do poder central.

– As histórias que
estão no livro mostram que as prostitutas sempre exerceram sua atividade
pautadas pela ética e respeito aos clientes. Não diria o mesmo dos políticos,
especialmente quando se valem da indústria do prazer com dinheiro público e a
usam também para intermediar negócios com o governo – diz o jornalista.
O outro lado do poder chega às principais livrarias do país no formato
impresso e também em e-book.
HISTÓRIAS DO LIVRO
A mansão no Lago Sul
onde o ministro Antonio Palocci, deputados e assessores foram denunciados por
promover festas com garotas de programa, entre 2003 e 2004, tinha quatro
suítes, piscina, salão de jogos, campo de futebol e quadra de tênis. Na época,
foi alugada por R$ 60 mil, por seis meses. Ficou conhecida como sede da
República de Ribeirão Preto. As prostitutas contratadas, fornecidas pela agenciadora
Jeany Mary Corner ao preço que variava entre R$ 50 mil e R$ 70 mil por evento,
misturavam água com guaraná e enchiam seus copos com pedras de gelo, para
simular que tomavam uísque com energético. A denúncia, feita pelo caseiro
Francenildo dos Santos Costa ao jornal “O Estado de S. Paulo”, provocou a queda
de Palocci.
Famoso bordel de Curitiba na primeira metade do século passado, a Casa de
Otília recebia muitos políticos, entre eles o presidente Getúlio Vargas. As
melhores suítes acolhiam os mais poderosos. À clientela menos privilegiada
ficavam reservados quartos improvisados no quintal. Era um espaço de prazer
democrático, que recebia, indistintamente, o rico e o pobre, o figurão e o
anônimo. Na Casa de Otília, não se perdia negócio. No fim da noite, com a
redução no movimento, o preço do serviço caía. Era uma perfeita aula de
liberalismo econômico, com a lei da procura e da oferta regulando os valores
dos serviços ali oferecidos.
A construção de Brasília fez surgir o primeiro bordel, perto do Palácio do
Alvorada. Numa localidade conhecida como Veneza, o cabaré tinha como público
alvo os profissionais encarregados de construir e urbanizar Brasília, assim
como empresários e políticos a caminho da capital federal. Já os peões seguiam
nos fins de semana em caminhões para Luziânia ou Formosa, em Goiás. “Nesses
lugares, a fila às vezes reunia uns 300 homens, e as mulheres iam gritando: ‘Tô
livre!’. Quando saía o pagamento, então, era um inferno”, conta uma das prostitutas
que trabalharam por lá.

Logo após a vitória de Fernando Collor sobre Lula, em 1989, seu irmão Pedro,
que mantinha uma relação fraterna com Fernando, contratou a agenciadora Jeany
Mary Corner para organizar uma das festas da vitória do novo presidente. A
celebração foi na boate A Côrte, no Hotel St. Paul Plaza, na Asa Sul. Pedro
pediu as prostitutas mais belas da capital. “Pode deixar, vou fazer a lista.
Mas vai ficar caro, doutor Pedro”, alertou Jeany. “Isso não importa”, respondeu
o irmão do presidente, decidido a não economizar.
A Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios reúne todo ano, no mês de abril,
quase dez mil prefeitos, vereadores e secretários municipais. Cada edição se
estende por três dias e lota boates da capital. É o grande momento do mercado
da prostituição no país. Centenas de moças de cidades vizinhas chegam a
Brasília em caravanas. Na edição de 2019, o prefeito de Tibagi, no Paraná,
Rildo Emanoel Leonardi (MDB), foi flagrado seminu pelas câmeras do elevador de
um hotel da Asa Sul de Brasília, em relações íntimas com uma mulher. No mesmo
hotel, câmeras do corredor de outro andar registraram o momento em que mais um
prefeito, de uma cidade de Rondônia, circulou nu de madrugada.