Um novo livro de Ario Borges
Nunes Junior chega às livrarias, sob o selo das edições Fons Sapientiae. Trata-se de Os
estigmas místicos e a psicanálise: um diálogo. Uma obra, que segundo o
prefaciador – Luiz Felipe Pondé, filósofo e professor –, mostra como a
psicanálise e a teologia mística podem dialogar de forma rica e elegante. Os
estigmas, popularmente conhecidos como chagas, são fenômenos do universo
religioso que se vinculam estreitamente a outros campos da experiência humana.
Descritos em diferentes fontes hagiográficas (biografias de santos) e
fundamentados pela teologia, eles se inscreveram, também, na literatura e na
arte como fatos espetaculares.

A partir do século XIX, foram
assimilados ao discurso científico, associando-se aos sintomas de disfunções
orgânicas ou mentais. Nesse contexto, a entrada em cena da psicanálise
possibilitou a produção de hipóteses acerca da sua incidência, a partir do
protagonista e de alguns aspectos psicodinâmicos que caracterizam o seu mundo
interno. No campo hagiográfico da estigmatização, as de São Francisco, surgidas
dois anos antes de sua morte em 1226, no século XIII, foram as primeiras a
despertarem o real interesse, na tradição eclesiástica. Os estigmas levantaram
inúmeras questões e dúvidas que abriram a possibilidade para algum consenso
entre diferentes campos da existência humana.
Um estigma representa a marca
do sofrimento de Cristo pela humanidade. O sangramento contínuo que uma ferida
como essa implica, e a dor evidente, são as provas físicas da dor de Cristo (de
Deus, portanto) pelo mundo. Um místico que sofre na carne um estigma é um
eleito, descendente teológico d´Aquele que deu a vida pelo mundo. Não pode
haver herança mais nobre do que essa. A pessoa torna-se alguém, como dizem os
teólogos russos, da “raça de Deus”.
O psicanalista Jacques Lacan,
no momento mais maduro da sua obra, se encantou com as místicas medievais da
região conhecida como “renano-flamenga”, na França. Nesta região (Holanda,
Bélgica, norte da França e oeste da Alemanha), próxima ao rio Reno, floresceu
entre os séculos XIII e XV uma rica cultura mística plena de narrativas de relação
direta entre Deus e homens e Deus e mulheres (essas, principalmente, as
conhecidas “beguinas”). “Este estudo vem se somar a outros em que a
psicanálise, na tradição inaugurada pelo próprio Freud, busca entender a
cultura e seus “sintomas”.
O autor, entretanto, de forma
muito feliz, não cai num reducionismo “psicologizante”, tão comum em casos
semelhantes. A dignidade da construção identitária, via a inscrição da linhagem
nobre de Cristo na carne do “paciente místico”, é analisada na sua consistência
conceitual e vivencial, tal como vista pela teologia. E neste sentido, Ario
Borges Nunes Junior dá uma bela demonstração de como psicanálise e teologia
mística podem dialogar de forma rica e elegante”, diz o professor Luiz Felipe
Pondé.
Sobre
o autor
Ario Borges Nunes Junior é
psicanalista, nasceu em São Paulo, em 1961. Cursou o ensino médio no Colégio
São Luís, na mesma cidade. É doutor em Psicologia Social, pela Universidade de
São Paulo (2001), e doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense
(2013). Publicou Êxtase e clausura: sujeito místico, psicanálise e estética
(Annablume, São Paulo, 2005) e Relíquia: o destino do corpo na tradição cristã
(Paulus, São Paulo, 2013). Fenômeno míticos: caracterização e estudos de caso
(Ecclesiae, 2015), Relíquia: Transcendência do corpo (Museu de Arte Sacra de
São Paulo, 2017) e Arquitetura de uma Monja – Biografia de Irmã Teresa do
Menino Jesus e da Santa Face (Fons Sapientiae, 2018). Atualmente, faz estágio
de Pós-doutorado no departamento de Ciências da Religião da PUC-SP e dedica o
seu tempo de trabalho à clínica psicanalítica.