Com bom
humor, alegria e determinação, Sidney Cabral dos Santos, que sofreu paralisia
parcial do cérebro em seu nascimento, relata as dificuldades que a vida impõe a
um deficiente. Ele sai todos os dias de Campo Grande, na Zona Oeste, em uma cadeira
de rodas, para vender exemplares dos livros que já escreveu - com a ajuda dos irmãos -, onde conta sua
história. Sidinho pretende fazer novas edições, mas, para isso, precisa da ajuda da
sociedade. Quem puder cooperar, através da compra dos livros, apoio ou
patrocínio, pode ligar para o telefone (21) 98667-0815.
Na dúvida de como iniciar este texto, me veio à mente o saudoso amigo
José Monteiro, jornalista das antigas, com o qual trabalhei no início do jornal
POVO na Rua, diário no qual ele
assinava uma coluna com o sugestivo título de “Exemplo de Vida”, que depois
virou livro. Eu pego carona neste título para falar de Sidney Cabral dos Santos, de 44 anos, com quem encontrei duas ou
três vezes pela manhã, ao descer a Rua Silveira Martins, no Catete, quando eu
estava indo em direção à estação do Metrô.
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Sidney sai de Campo Grande em cadeira de rodas para vender seus livros |
Mas, quem é Sidney, ou “Sidinho”? Para defini-lo, vou usar aqui suas
próprias palavras, retiradas do livro “As dificuldades de um deficiente na
sociedade I”, de sua autoria. “Eu
sou um deficiente, uma pessoa que, apesar da minha ‘aparência’, já passei por
muitas alegrias e tristezas nessa minha vida. [...] Eu tenho sentimentos e, o
mais importante, eu tenho ‘alma’. [...] Eu sou um corpo com alma que possui
limitações. Eu dependo da compaixão das pessoas que me cercam para a minha
rotina diária”.
Quem me conhece sabe que sou um incentivador da leitura. Além da
manutenção deste Blog de Incentivo à Leitura, procuro fazer sorteio de livros
para os leitores, seja através do próprio blog, do Facebook ou das páginas da
revista Agito Rio, onde mantenho uma
coluna literária. Faço o mesmo entre os meus alunos da Faculdade de Jornalismo
Pinheiro Guimarães. Encontrar o Sidney na rua, ao lado do irmão Eduardo,
vendendo suas obras - “As dificuldades de um deficiente na
sociedade – I, II e III” –, foi um
verdadeiro tesouro literário. Ler suas histórias, escritas com muita emoção,
alegria e humor, nos leva à constatação de que entendemos muito pouco do mundo
em que vivemos, dos designíos de Deus e da maneira como tratamos o nosso
semelhante. E nisso Sidinho nos dá uma verdadeira aula de sabedoria.
“Meus amigos, a vida de um
deficiente não é fácil, mas tenho uma coisa muito bonita comigo: eu me aceito
assim como sou e não fico bravo com Deus por ser assim. Pelo contrário, eu
agradeço a Deus sempre que ele se apresenta perante a mim, em forma de uma
pessoa desconhecida, pronta para me entender a mão”.
Em seu nascimento, Sidney teve que ser puxado a ferro pelos médicos, o
que resultou em uma paralisia parcial de seu cérebro. “Portanto, como você podem ver, eu não pedi para ser assim, mas, por
alguma razão, Deus achou necessário que eu fosse assim, uma pessoa
especialmente especial”. Do Rio de Janeiro, a família, de classe média,
composta pelo pai, mãe e quatro filhos, mudou para Brasília, onde teve início o
tratamento de Sidney, então com um mês de vida, no Hospital Sara Kubitschek.
Foram sete anos de uma rotina diária, sempre com a esperança de que, um dia, ele
pudesse caminhar. Nesse período, a ajuda da tia Maria e do primo Ricardo,
falecido precocemente, foram fundamentais.
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O irmão Eduardo está sempre ao lado de Sidney |
Quando Sidinho tinha oito anos, a família voltou para o Rio de Janeiro.
Como não tinham onde morar, passaram uma temporada na casa da avó Irene. Em
seguida, foram morar na Vila Ieda, em Campo Grande, na Zona Oeste da cidade, e
contaram com a ajuda de Dona Deusa, uma vizinha que sempre levantava o astral
de Sidinho. Essa bonita amizade durou cerca de sete anos, quando a família
mudou novamente, desta vez em definitivo, para uma casa simples na Estrada do
Pedregoso, também em Campo Grande.
AVENTURAS E DESVENTURAS
Ao longo dos últimos 30 anos, Sidney viveu momentos inesquecíveis ao lado
de familiares e amigos. Alguns bem alegres, como quando o irmão Jorge, ainda na
adolescência, o colocava em cima de um colchão, em um carrinho de mão, e ia
para a rua passear. “Vocês não podem
imaginar a alegria que senti. Me senti como um leigo quando abre um livro pela
primeira vez e começa a se maravilhar com as letras e começava a juntar as
palavras. Eu senti o mundo se abrindo diante de mim. Tudo era novidade, tudo
era bonita aos meus olhos”, conta ele em sua obra.
As “aventuras e desventuras” foram se sucedendo ao longo da vida de
Sidney. Do carrinho de mão para o carrinho de rolimã foi um pulo. E logo depois
lá estava ele, junto com o irmão, apostando corrida. A alta velocidade,
associada à falta de um cinto de segurança e ao fato de Sidinho não ter
controle das mãos, culminou com uma queda de cara no chão. Em outra
oportunidade, os amigos, achando que ele precisava de mais “emoção” em sua
vida, o colocaram em um carrinho, improvisado com um latão cortado ao meio, e o
empurraram morro abaixo. No meio do caminho, descontrolado, o latão foi em direção
a um lago barrento. “Quando o latão bateu
na água e eu senti que estava quase me afogando, eu comecei a gritar,
desesperado. Graças a Deus que o meu amigo Gerson percebeu aquela situação,
correu o mais que podem em minha direção e, como sempre, me ajudou”,
lembra.
Em certa ocasião, junto com o irmão, o primo e dois colegas, Sidney foi
passear em Grumari, para aproveitar o dia de sol. No final da tarde, ao voltar
para casa, o carro parou na estrada, por falta de combustível. O veículo foi
empurrado para o acostamento e os quatro acompanhantes de Sidinho saíram em
busca de combustível, deixando-o completamente sozinho até 1h30 da madrugada,
com fome, frio e muito medo. “Eu estava
tão apavorado pelo silêncio do lugar que me tremia todo e acabei por sujar as
minhas calças. Quando eles chegaram, ainda ficaram me zoando”, diz,
lembrando que ficou bastante chateado com a situação.
Em 1998, Sidney conheceu Elizabete, por quem se apaixonou e foi
correspondido. Namoraram e ela engravidou. Estavam contentes, mas preocupados
com o sustento da criança. A patroa de Elizabete ia morar em São Paulo e a
convidou para ir junto, trabalhar na nova residência, já que assim ela poderia
dar apoio à mãe e à criança. Uma tragédia, no entanto, aconteceu dias depois de
chegarem à cidade paulista: uma carreta desgovernada passou por cima do carro,
matando a patroa, a mulher e o bebê. Deprimido, Sidinho, que ficara no Rio de
Janeiro, pensou em se matar. Uma conversa com a irmã Vera, no entanto, fez com
que ele tirasse essa ideia a da cabeça.
AMIZADES
Nos três livros escritos por Sidney Cabral dos Santos existem inúmeras
brincadeiras com o pai – falecido em 2012 -, os irmãos, primos e amigos, como
JC, Fábio, Felipe, Vandinho, Adelina, Gerson, Evandro, Zico, Paulo, Pelé, Fafá,
Galeco, Bocão e Parreira, entre outros. Em algumas, no entanto, por mais que
tentassem incluí-lo, não era possível. “Quando
brincavam de pique-pega ou de bandeirinha, só me restava ficar sentado, olhando”,
conta. Situações inusitadas, como ser abordado por milicianos na volta para
casa, já de madrugada, ou por Guardas Municipais por estar acampando em local
proibido, na praia do Meio, são apenas mais dois exemplos de como sua vida
sempre foi bastante movimentada.
Sidinho conta que, quando está sem namorada, apela para as chamadas “profissionais
do ramo”. Um dia resolveu ir com o amigo Bocão à Vila Mimosa, no Centro. O
local estava lotado e a dificuldade para encontrar alguém disponível era
enorme. Mais de cinco horas depois Sidinho resolveu apelar: foi até um carro da
Polícia que estava parado nas proximidades e pediu “ajuda” aos policiais. Um
deles foi até um dos estabelecimentos e ameaçou fechar o local por causa do som
alto. A dona veio saber o que estava acontecendo e, diante da história,
‘escalou’ uma profissional para atendê-los. “Foi aí que veio a surpresa, pois ela era enorme de gorda e muito feia,
mas não tive escola. Fui para o abate, e meu amigo também foi, logo depois. Ela
me deu um cartão dela e voltei lá outras vezes”, relata.
Os três livros escritos por Sidinho contém depoimentos interessantíssimos
da vida de uma pessoa que sofreu bastante, mas que, com a ajuda de muitas
pessoas e, principalmente, por sua força de vontade, lutou contra preconceitos
que ainda existem e conseguiu atingir objetivos que “pessoas ditas normais” não
conseguiram. O que encontramos nas páginas de “As dificuldades de um deficiente
na sociedade – I, II e III” serve – e servirá – de lição para muita
gente.
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As três obras escritas por Sidney com o auxílio da família |
Sidney agradece a todos os que colaboraram para a impressão dos
exemplares, como a Pizzaria Aroma e Sabor, à Qualifika, à Companhia da Embalagem,
à equipe da FUNLAR RIO, instituição voltada para a
pessoa portadora de deficiência da Cidade do Rio de Janeiro, e à Master Print
Indústria Gráfica. O escritor tem planos de continuar lançando novos livros,
mas, para isso, precisa do apoio da sociedade. Quem puder ajudar, seja com a
compra, edição ou impressão dos livros, apoio ou patrocínio, basta ligar para o
telefone (21) 98667-0815.
Quando você encontrar Sidinho pelas ruas da cidade, compre seus
livros e troque alguns minutos de prosa com um cidadão que, apesar das
dificuldades que o mundo lhe impõe, está sempre de bom humor e é um verdadeiro
exemplo de vida.