Livro “Salve
Complexo do Alemão” tem lançamento previsto para o dia 24 de julho, na Livraria Travessa de Ipanema
Formada por 13 favelas com mais de 70 mil habitantes, o Complexo do
Alemão tem uma história marcada por violência, exclusão e desconhecimento. Não
faz muito tempo, poucas eram as pessoas, além dos moradores, a subirem o morro.
Então quase nada se sabia sobre quem vivia lá. O cenário hoje não é o mesmo e
todas as atenções estão voltadas para um mundo até então reduzido apenas aos
limites da favela. Exemplo disso é o livro A Voz do Alemão, escrito em parceria pela jornalista
Sabrina Abreu e pelo jovem Rene Silva, morador do Alemão.
Na obra, com o selo da nVersos, Sabrina e Rene recuperam a
história do Complexo ao contá-la por meio do jornal Voz da Comunidade, criado por Rene aos 11 anos de idade. Para isso,
trazem uma grande diversidade de fontes que, somada à rica pesquisa, tornam a
obra um retrato real e plural da comunidade.
Conhecido como “Rene do Voz”, o jovem criou o jornal em 2005 para falar
sobre os problemas e necessidades dos moradores do Morro do Adeus, local onde
vivia com os avós, a mãe e os irmãos. O que começou com uma folha de sulfite dobrada em quatro partes tomou
força por falar daqueles que, até então, eram invisíveis diante da grande
violência em que viviam.
“O Complexo só costumava ser citado quando o conteúdo se referia às
vendas de drogas e às guerras do tráfico”,
afirma Helcimar Lopes, pesquisador e supervisor do Instituto Raízes em
Movimento, uma ONG sediada no Morro do Alemão.
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Rene Silva e Sabrina Abreu |
A notoriedade de Rene dentro do Complexo cresceu e se firmou, porém, foi
apenas cinco anos depois, no dia 27 de novembro de 2010, com um post no Twitter, que a fama o alcançou. Nele, Rene falava sobre a
movimentação dos traficantes um dia antes da ocupação policial que foi notícia
no mundo todo. “No dia seguinte,
repórteres de cinco jornais diferentes esperavam na rua para entrevistar Rene”.
Com a fama, veio a oportunidade de aumentar os projetos sociais. Além do
jornal, Rene também havia criado todo um cronograma de ações aproveitando datas
comemorativas, como o Natal e a Páscoa. “Eles
tiveram um salto de qualidade e alcance depois que o jornal comunitário ganhou
mais visibilidade – e que Rene teve acesso a quem poderia ajudá-lo a conseguir
mais doações e atrações”. Com o apoio de famosos, como Preta Gil e
a banda NX Zero, as arrecadações e doações saltaram de volume.
A Voz do Alemão é a constatação de que
força de vontade e atitudes podem fazer a diferença. O livro, em 200 páginas,
documenta e promove o sucesso das “crias do Complexo” sem se esquecer do
passado sofrido, mas com esperança. Sua pluralidade e riqueza de detalhes
oferecem ao leitor uma oportunidade única de imersão na realidade do Complexo,
o que o torna único.
Atmosfera da comunidade
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Rene organizou uma Colônia de Férias junto com o GEDMA (Foto: Hélio Araújo) |
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Buscando detalhes da trajetória de
sucesso de Rene Silva e do Voz da
Comunidade, Sabrina Abreu captou também a
atmosfera do Complexo do Alemão após a pacificação,
iniciada em 2010. A
reconstrução da autoestima dos moradores, a chegada dos turistas e o florescer
de novos empreendimentos nesse conjunto de favelas são parte dos relatos da
autora, assim como os problemas que ainda persistem, como as reclamações da
juventude com relação à abordagem policial e à falta de infraestrutura.
Guiada pelos becos e vielas por
Rene e outros adolescentes repórteres do Voz,
ela ouviu histórias dos tempos da guerra entre traficantes e conheceu pessoas
que, de forma criativa e obstinada, melhoram a própria vida e o local onde
vivem. A Voz do Alemão mostra
como Rene aproveitou a visibilidade conquistada por ele nas redes sociais, e na
grande imprensa, para quebrar a invisibilidade social de sua comunidade.
Correndo com a tocha Olímpica nos jogos de Londres de 2012 ou vivendo sua
própria vida na novela Salve Jorge,
de Glória Perez, veiculada na Rede Globo, ele se tornou um embaixador da
favela. E fez questão de mostrar que é apenas um entre milhares e milhares de
jovens com ânsia por transformação. No Complexo ou no resto do Rio de
Janeiro. E do Brasil.
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Mais de 70 mil pessoas moram no Complexo do Alemão (Foto: Hélio Araújo) |
Por três décadas, o Complexo do
Alemão, graças às guerras entre facções criminosas, foi descrito pela imprensa
como “cidade do tráfico”, “coração do mal” e até “inferno”. Um dos resultados
da marginalização do território foi a marginalização de seus moradores. Com o
início do processo de pacificação, em novembro de 2010, tornaram-se conhecidos
exemplos de empreendedorismo e de sucesso dentro desse conjunto de favelas. O
mais famoso deles é Rene Silva, que se destacou naqueles dias ao narrar a
movimentação das tropas policiais e a debandada dos traficantes, via Twitter.
Cinco anos antes, o garoto criara o jornal Voz
da Comunidade, que hoje é um veículo de
comunicação premiado e conhecido no Brasil e no exterior.
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Teleférico tem atraído ao milhares de turistas ao Alemão (Foto: Hélio Araújo) |
Fio
condutor de A Voz do Alemão, a trajetória de Rene soma-se à de vários outros
jovens do Complexo, que estudam, trabalham e não se conformam com a falta de
infraestrutura do local onde vivem. Eles são a maioria. Um coro de vozes que se
levanta para que a paz seja real e duradoura.
Sobre os autores
Sabrina Abreu é jornalista formada
em Imagem e Cultura de Mídia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Autora de outros três livros de não ficção, incluindo Meu Israel: viagem ao país onde céu e terra se encontram, ela
frequenta o Complexo do Alemão desde 2011. Atualmente, vive em Belo Horizonte,
onde é colunista da revista Veja BH.
Rene Silva
é criador e editor-chefe do jornal Voz da
Comunidade e morador do Complexo do Alemão.