Por Claudio Sassaki *
Nada escapa ao poder
inexorável do tempo. Um dos temas debatidos na Bienal Internacional do Livro de
2019, no Rio de Janeiro, foi o viés racista na obra do autor do Sítio do
Pica-Pau Amarelo. Na mesa Relendo Monteiro Lobato,os autores
Pedro Bandeira e Marisa Lajoto levaram para o Café Literário as questões que
fizeram com que o escritor de uma das mais consagradas obras da literatura
infantil passasse a ser relido à luz das concepções ideológicas contemporâneas.
Ambos abordaram, ainda, as principais características da produção literária
lobatiana: curiosidades da vida do escritor e a importância que ele teve para a
formação de novos leitores no Brasil. No bate-papo, os autores – Bandeira
assumiu o desafio de atualizar a obra de Lobato para o século XXI e Marisa é
autora de uma biografia em primeira pessoa, a partir das cartas que ele
escreveu –, afirmaram que embora adepto de pensamentos racistas, esse traço não
estava presente nas publicações do escritor; não era um aspecto unívoco da obra
dele.

Alinhado às demandas
atuais, parte da missão de Pedro Bandeira consistiu em eliminar as expressões
racistas, atualizando os textos para jovens e crianças contemporâneas. Os
xingamentos que Emília proferia contra Tia Anastácia não têm mais espaço nas
novas edições da Editora Moderna, tampouco na sociedade brasileira. Mas, a
linguagem, a genialidade e o humor de Lobato serão preservados. A movimentação
editorial ocorre no momento em que a obra passou ao domínio público, ou seja,
os direitos autorais não pertencem mais exclusivamente aos descendentes, 70
anos após a morte do escritor.
Como pai de quatro
filhos e mestre em Educação pela Universidade de Stanford, tenho acompanhado a
polêmica em torno dessas novas edições e do conteúdo da obra original. Em 2010,
por exemplo, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) manteve a obra Caçadas de
Pedrinho no Programa Nacional Biblioteca da Escola, desde que
houvesse a advertência de condicionar o livro, no contexto de educação escolar,
a professores com a devida compreensão dos processos históricos que geram o
racismo no Brasil. Cabe ressaltar que a edição com uma adaptação crítica –
similar à proposta de Pedro Bandeira – não é exatamente uma novidade na
literatura. O quadrinho “Tintim no Congo” foi objeto de debates públicos na Europa
e hoje conta com edições revisadas que eliminaram os resquícios do colonialismo
belga; antes, o conteúdo era repleto de estereótipos e preconceitos contra os
africanos.
Monteiro Lobato e
Hegé (Georges Prosper Remi) nasceram, respectivamente, em 1882 e 1907. São
resultado de uma escola e de um modelo de educação pertencente a um mundo muito
diferente. E é esse ponto que quero abordar. Da mesma forma como muitas pessoas
(educadores, pais e autores) resistem à revisão de obras literárias – feita com
respeito e profissionalismo, ressalto –, se opõem à atualização da forma como
educamos nossas crianças e da própria escola, que também tem sofrido o peso do
tempo. Se nós, pais, já não somos os mesmos... imagine os nossos filhos!
Como especialista em
educação e empreendedor da Geekie, tenho rodado o mundo, palestrando sobre o
tema com um olhar muito voltado para a escola brasileira e as referências
educacionais no exterior. Na edição de 2018 do Fórum Econômico Mundial para
América Latina, cujo tema transversal foi a Quarta Revolução Industrial – um
momento no qual o mundo está interconectado, mas a organização geopolítica e os
problemas globais não correspondem à forma como estamos organizados – a minha
colaboração foi levar o olhar da tecnologia e da inovação, dentro de um
contexto educacional real e prático. Quando se pensa que a escola atua com o
desafio de preparar o aluno para as competências do século XXI – mas, que ainda
perpetua um modelo de trabalho baseado nas habilidades necessárias na época da
revolução industrial – percebe-se que a proposta educacional adotada por grande
parte das escolas está distante de um modelo de trabalho e de vida em sociedade
com pensamento crítico, autonomia e visão de futuro.
No cerne do desafio de
preparar os jovens para o mercado de trabalho do futuro está a necessidade de
questionar um sistema educacional no qual as habilidades que ele se propõe a
desenvolver – basicamente, memorização e preparação para um exame vestibular –
não têm nada a ver com as habilidades e competências que o mercado de trabalho
exige (criatividade, pensamento crítico, trabalho em equipe e comunicação). Ou
seja, o oposto do que o modelo tradicional executa ao manter o aluno sentado em
uma carteira, em postura passiva, copiando textos e estudando sozinho para a
prova.
Essa falta de
sintonia entre a escola e educar para o futuro está custando caro; nossos
filhos estão abandonando a sala de aula. No Brasil, de acordo com a PNAD, 50%
dos jovens brasileiros não conseguem concluir o Ensino Médio até os 19 anos. A
necessidade de trabalhar, que pode vir à mente como principal fator da evasão
escolar, não é o primeiro motivo: 40% dos jovens que abandonaram os estudos
apontam o desinteresse – de acordo com a pesquisa da Fundação Getulio Vargas.
O problema do acesso
universal à uma educação de qualidade não é só social, mas também é uma questão
de competitividade! Se o país não garantir que todas as pessoas que passam pelo
sistema educacional tenham capacidade de desenvolver plenamente o próprio
potencial, corremos o risco de deixar vários “Stephen Hawking” pelo caminho. Se
o Brasil quiser ser um país competitivo, precisamos que todas as crianças
tenham uma educação de qualidade. Temos que mudar, no mínimo, o Ensino Médio
para aproximar essas duas pontas; para que o dia a dia desse aluno na escola
seja conectado com o que ele vai ser demandado no mercado de trabalho. O
primeiro passo da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é direcionar o ensino
para habilidades e competências, mas para que isso aconteça há um longo
caminho. E esse caminho tem muito a ver com levar inovação, tecnologia,
empreendedorismo e noção de cooperação para dentro da sala de aula.
Hoje, a escola muitas
vezes ainda está distante de ser um ambiente de colaboração; o estudante por
vezes está sozinho, o pai tem que contratar professor particular para
esclarecer dúvidas adicionais. O professor também está em uma jornada
solitária, dando aulas em várias escolas e sem tempo de estabelecer vínculos; o
coordenador vive uma rotina sobrecarregada e de cobranças. Ou seja, cada um
está imerso no próprio cotidiano, sendo que a escola deveria ser por essência
um lugar de colaboração e de corresponsabilidade em prol de um objetivo maior –
o desenvolvimento das pessoas. Um lugar de encontro para alunos, pais,
professores e coordenadores; todos unidos em uma comunidade escolar de
fato.
Óbvio que esse
desafio de criar uma “nova edição crítica da escola” passa por toda a
comunidade escolar. Mas, acredito que passa necessariamente pela coragem das
famílias de exigir a transformação da escola; passa por não ter medo da mudança
e de lançar um olhar crítico para esse modelo escolar que tem origem no século
XII. E não se trata de jogar tudo fora, como se nada fosse bom ou passível de
edição. Estou falando de, como nas novas edições de Monteiro Lobato, reconhecer
a genialidade de conteúdos e transformar o que não dialoga com o mundo atual.
Essa é uma decisão urgente, pessoal e intransferível. As famílias também
precisam assumir o protagonismo na transformação da escola.
Voltando ao tema de
literatura e questões raciais, o Café Literário da Bienal do Livro
contará, nesse sábado (7 de setembro), às 11 horas, com a mesa Machado de
Assis e a Literatura Negra. O encontro terá a participação da educadora
Conceição Evaristo, mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutora em
Leitura Comparada pela UFF; o escritor e defensor público do Distrito Federal
José Almeida Júnior, autor de “O Homem que Odiava Machado de Assis; e Eduardo
Assis de Andrade, doutor em Letras – Teoria da Literatura e Literatura
Comparada – pela USP. Os especialistas discutirão o resgate da negritude do
escritor e a importância dessa questão em sua produção literária. A Bienal
Internacional do Livro acontece até domingo, 8 de setembro, no Riocentro.
* Claudio Sassaki é mestre em Educação pela Stanford University e
cofundador da Geekie, empresa referência em educação com apoio de inovação no
Brasil e no mundo.