Na obra, ele versa
sobre temas que vão da inexorabilidade do tempo à perenidade da existência e
das relações humanas
“Viver é caminhar morte adentro”
(Tanussi Cardoso)
O
tempo é inexorável. Tanussi Cardoso sabe bem disso. O poeta, que
completou 80 anos no início deste ano, dedicou-se nos últimos anos a refletir
sobre esta instância e suas inevitáveis consequências, muitas delas
relacionadas a perdas, físicas e afetivas. Natural que desse balanço saíssem
poemas. E eles estão reunidos agora em “Absurdo coração” (Patuá
Editora), nova coletânea do escritor, autor de 16 títulos (três deles
editados no exterior), e com a qual ele celebra suas oito décadas de vida.
A edição é aberta com textos de dois importantes poetas: Adriano Spínola e Ricardo Alfaya, que assinam, respectivamente, prefácio e apresentação. Já a orelha coube à poeta Suzana Vargas, que destaca, entre outros aspectos, o rigor do material ali reunido. “Tanussi coloca diante de nós questões existenciais que se transmutam em questões políticas e sociais, sem cair no panfletário, na pura denúncia, no puro espasmo ideológico”, aponta ela na edição, que será lançada no próximo dia 29, às 17h30, no Centro Cultural da Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241), Cinelândia, no Centro do Rio.
A
coletânea é dividida em duas partes: “Dentes cravados no tempo” e “O tempo que
nos habita”. Na primeira delas, o poeta expõe sua percepção sobre temas
relacionados à finitude e aos infortúnios da existência. “Meus mortos costumam
vir à noitinha/ Eu espero// Preparo o chá com ervas e torradas (...) Talvez, as
irmãs apareçam/ com suas gargalhadas rompendo o ar”, escreve ele em “Reunião”,
um dos muitos poemas no qual o espectro da Morte faz-se presente. O mesmo se dá
em “Luto”, quando traz novamente o tema à baila: “O pior da morte é saber/ que
palavras não ditas/ não mais serão ditas”.
A relação do poeta com a passagem do tempo forja-se em outros dos textos desta primeira seção. É o caso de “A travessia do tempo”, através do qual a dimensão e a pungência do tempo são elaboradas através de um bem-construído jogo de perguntas e respostas: “O tempo tem tempo? Existe? / É sobressalto? Sobre saltos?// Ou é Ulisses a navegar sobre chuvas e tempestades?/ Ou, Sísifo, a carregar no ombro a Pedra da Eternidade?”... Tais questionamentos desdobram-se em “Os dias”, segunda das “Cinco considerações sobre o tempo”: “Sinto-me correndo atrás dos ponteiros do relógio/ Sempre atrasado. E longe// O coração é um silêncio sem nada dentro”.
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| Poeta Tanussi Cardoso |
A relação do poeta com a própria escrita norteia também outras de suas falas na obra. Um exemplo está em “Lendo o poema”, quando amplia sua reflexão ao chamar à conversa o próprio leitor em versos como “Não perguntes ao poeta/ O que quer dizer isso?/ Antes, pergunta a ti mesmo/O que senti com isso?”.
Já
na segunda parte da coletânea, predomina a lírica que, como Spínola avalia em
seu prefácio, está “voltada para a subjetividade e as vicissitudes do eu”. A
existência e suas dialéticas inspiram poemas como “Luz nas sombras”, no qual a
escuridão é abordada sob diferentes óticas: “Tateia o chão/ com sua bengala/ o
jovem cego/ sorridente e livre// E eu, triste, que a tudo enxergo/sei mais da
escuridão/ e seus limites”.
Episódios
factuais como o trágico acidente ambiental causado pelo rompimento de uma
barragem em Minas Gerais leva o poeta a questionar o valor da existência em “A
vida que nada vale”: “A lama não é só a lama: é a metáfora de um país” (...) “A
água parada/ O rio morto/ O povo morto”.
Já o amor aparece em diferentes textos em vertentes que vão da celebração pelo seu surgimento (“É dado ao amor acreditar em primaveras”) ao pesar por sua descontinuidade. Os encontros proporcionados pela vida, profundos ou voláteis, não escapam ao olhar do poeta, que trata da questão de forma sucinta e contundente em “Gratidão”. “Algumas pessoas me mataram/ Outras me deram o ar/ Mas, mesmo as que me enterraram/me ensinaram o dom de renascer/ nessa lida/ Agradeço a faca e a flor de cada um/Devo-lhes a vida”, reconhece ele.


