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Livraria Travessa do Leblon recebeu, na noite de ontem (20), a sessão de autógrafos para o lançamento do mais
novo livro da jornalista Martha Mendonça: Filhas de Eva, no qual mostra um novo
olhar sobre o turbilhão de sentimentos que cabe dentro das mulheres – ou sobre
como um mesmo sentimento pode habitar cada uma de maneira tão ímpar. Seja pela
forma ou pelo conteúdo de suas narrativas, Martha revela a força e os extremos
exacerbados de suas personagens. Com seu estilo original e leve, esmiúça as
relações e a intimidade do universo feminino, misturando crítica e humor em
histórias deliciosas.
Uma
das cabeças por trás do site Sensacionalista, do qual é um das fundadoras e
redatoras, Martha Mendonça tem faro apurado para identificar as figuras mais
curiosas e pena afiada para transformá-las na mais prazerosa literatura. Assim
como é impossível um escândalo escapar do tabloide virtual de humor mais lido
do país, nada foge ao olhar de Martha, arguta observadora e bem-humorada
ficcionista do cotidiano das mulheres.
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| A maciça presença feminina no lançamento de 'Filhas de Eva' |
Neste
seu quarto livro publicado pela Editora
Record, ela retoma o momento daquela
primeira virada: a coletânea inclui “Namorada”, o conto premiado em 2003, além
de outras 17 narrativas sobre mulheres “adjetivas”, personagens que começam a
se revelar ao leitor já a partir de títulos como “Obcecada”, “Indecisa”,
“Romântica”, “Desperta” ou “Morta”. Com aparente despretensão, a autora
empreende uma investigação do universo feminino em toda a sua complexidade,
como se houvesse uma interligação entre os relatos ora comoventes, ora
contundentes.
Confira
abaixo a entrevista de Martha Mendonça concedida à jornalista Marta Barcelos,
do Blog da Editora Record, no qual a escritora fala da construção das
personagens, de seu fascínio pelo feminino, da influência do humor e também da
possibilidade de, no futuro, as filhas desta Eva serem adaptadas para outras
linguagens.
A primeira frase do conto “Eva”, que abre o livro, é uma
referência ao célebre começo de “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir
(“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”). Você pretendia imprimir algum efeito
com essa primeira personagem ancestral, que nunca brincou de boneca e já nasceu
“assim”? Eva e suas filhas de alguma forma dialogam com o feminismo?
Escrevi a maioria desses
contos há muito tempo, alguns há mais de dez anos. Os contos começaram a sair
depois que o “Namorada” ficou entre os vencedores do Contos do Rio. Mas não era
fácil para uma autora iniciante publicar contos, então eles ficaram engavetados
e eu lancei outros cinco livros. Recentemente, resolvi mandar para a editora,
que gostou – e aí senti falta de alguma coisa que os amarrasse. Foi quando veio
a ideia da Eva e dessa introdução.
A referência a Beauvoir
surgiu como uma brincadeira. Simone falava das pressões sociais e culturais que
nos fazem mulheres. Eva, na minha fantasia, não teve esta condição, por ter
sido a primeira. Ela era o que era, não
lhe foram dadas bonecas, nem lhe foram negados direitos. E, em seus sonhos – ou
premonições – ela antevia tudo o que seríamos, essa diversidade caótica e
bonita em todos os tempos e idades. Não escrevi os contos pensando em dialogar
diretamente com o feminismo, mas acredito (e espero) que, ao mostrar esse
mosaico feminino, com suas dores e paixões, eu consiga gerar uma identificação
natural com as mulheres.
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| Martha Mendonça e o marido, Nelito Fernandes |
As “filhas de Eva”, em sua grande maioria, não têm nome. São
tipos familiares, mulheres comuns e nossas conhecidas, embora seus pequenos
grandes dramas sejam muito comoventes. De onde vieram as personagens?
Nunca sei direito
responder a esta pergunta, mas provavelmente veio de mim, de amigas, de pedaços
de personagens. Há algumas inspirações mais diretas, como uma tia-avó, cuja
história inspirou o conto “Indecisa”, e um acontecimento da vida de minha
sogra, já falecida, que era mãe-de-santo, em “Pombagira”. O conto “Obcecada”
surgiu quando eu ouvia a canção “Monomania”, da Clarice Falcão, mas não é
exatamente do que fala a música. Fora esses, nenhum outro conto é a história de
alguém de forma direta.
Como este livro se encaixa no contexto do universo feminino
que você vem construindo ao longo da sua obra? Traz um contraponto, ou algum
aspecto ainda não abordado? Por que o ponto de vista feminino lhe interessa?
Como ele foi escrito
antes dos outros – “Mulheres no ataque”, “Canalha – substantivo feminino” e
“40” -, não se trata de uma continuação. Olhando agora, para trás, vejo que
esse interesse de escrever sobre o feminino é resultado de um blog que eu e a
jornalista Carla Rodrigues fizemos de 2002 a 2004, que falava sobre mulheres.
Ali pensamos muitas coisas e dialogamos virtualmente com muita gente sobre o
assunto, sobre a aventura feminina. E acredito que meus livros sejam o fruto
desse trabalho. Carla hoje é, inclusive, professora de Filosofia e pesquisadora
de gênero.
Alguns autores relatam
ter se impressionado com os próprios personagens, quando os estavam criando.
Algumas das filhas de Eva “perseguiram” ou abalaram a sua autora?
Tanto tempo depois de
ter escrito, percebo que eles têm realmente vida própria, como se suas
histórias tivessem seguido em frente sem mim nesses anos todos. Ao reler esses
contos, alguns me abalam de fato, como “Compulsiva”, que fala do descontrole
emocional de uma mulher que compensa sua insegurança na comida, e o desespero
da mulher moderna em “Apressada”. Talvez porque os dois falem muito de mim (e,
ao mesmo tempo, de tantas mulheres).
Apesar de validar e compreender o sofrimento das
personagens, assumindo o seu ponto de vista, o narrador parece imprimir algum
toque de humor e até de otimismo à maioria das histórias. Esta é uma visão de
mundo da autora (de uma autora que trabalha com o humor)?
Acho que sim. Meu
pensamento é impregnado de humor. Hoje, depois que deixei o jornalismo e me
tornei redatora/roteirista, o humor é a matéria-prima do meu trabalho diário,
no site Sensacionalista e no novo Zorra, na TV. Além disso, sou uma otimista
incurável, percebo que é um sentimento quase infantil. Mas, ao mesmo tempo, me
sinto bem sendo assim, olhando as coisas com leveza, ironia ou crítica.
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| Martha Mendonça |
O seu trabalho de escritora, dramaturga e de roteirista de
alguma forma se confunde na hora da criação? “Filhas de Eva” já nasce com
potencial de adaptação para a TV, o teatro ou o cinema?
Quando escrevo, não penso em adaptação. No caso desses
contos, menos ainda, já que foram escritos uma década antes de eu pensar em
virar roteirista. Mas adaptações de histórias são sempre possíveis. Quando
escrevi “Canalha – substantivo feminino”, também não pensei nisso, mas acabaram
inspirando uma série que teve três temporadas no GNT – e o formato acaba de ser
comprado para uma produção americana. Filhas de Eva tem boas personagens, o que
pode, com certeza, inspirar adaptações de todo tipo. Torço para isso.
Fotos: Divulgação