sexta-feira, 3 de julho de 2015

Flip 2015: Poesia e questões urbanas permeiam os debates do segundo dia

A ideia de ultrapassar os limites dos guetos e das clausuras nos grandes centros urbanos norteou a fala do antropólogo, poeta e ensaísta Antonio Risério, que abriu a mesa “A cidade e o território”, da qual também participou o escritor Eucanaã Ferraz. O encontro iniciou o segundo dia de Flip, neste 2 de julho, e colocou a arquitetura em pauta. Ferraz criou um paralelo entre o poema “Rua de São Bento”, de Mário de Andrade, e uma cidade. Para ele, naqueles versos está a metáfora do canto da sereia, da cidade que – à semelhança da sereia – canta e seduz com uma promessa de amor que pode se traduzir em desgraça e morte. Os relatos completos das atividades estão disponíveis no blog da Flip (http://www.flip.org.br/blog.php).


Na sequência, a Tenda dos Autores recebeu escritores revelados em oficinas do Complexo do Alemão, no Laboratório Setor X, na tradicional mesa Zé Kleber, que discute a cidade e suas políticas públicas. Procurando relativizar as distinções entre centro e periferia, o encontro deste ano — intitulado “Falando alemão” — revelou múltiplas possibilidades da produção literária.

Na mesa 2, “De Micróbios e soldados”, um escritor bósnio radicado na Alemanha e um argentino vivendo há mais de vinte anos na França mapearam pontos em comum: a vivência da guerra na infância, os deslocamentos de vida e linguagem. Juntos, os ficcionistas Diego Vecchio e Saša Stanišić abordaram memória e literatura.

No fim da tarde, a poesia do carioca Mariano Marovatto e da lisboeta Matilde Campilho, com variados sotaques e estilos, ganhou os palcos da festa e arrebatou a plateia em Paraty. “A poesia é íntima mesmo quando é malabarista”, ressaltou Campilho, sempre lírica. Na sequência, Marovatto mencionou seu contato com a obra da escritora Ana Cristina Cesar e sua iniciação como poeta.

De volta à Flip onze anos depois, o autor irlandês Colm Tóibín leu um trecho de seu novo romance, “Nora Webster”, e traçou considerações sobre a poeta Elizabeth Bishop. Mencionou ainda o processo em torno do referendo sobre a legalização do casamento gay na Irlanda, realizado em maio.

Duas falas contundentes sobre Brasil, neurociência, literatura como grito: Jorge Mautner e Marcelino Freire encerraram o segundo dia de Flip na Tenda dos Autores, num encontro memorável. Arrancando aplausos da plateia, o músico de “Maracatu Atômico” e o escritor idealizador do festival Balada Literária foram, sem receios, “Do angu ao Kaos” — título da mesa. Acompanhe a transmissão ao vivo das mesas da programação principal no site da Flip (http://www.flip.org.br/). E veja a cobertura da festa pelo Facebook (https://www.facebook.com/flip.paraty), Twitter (https://twitter.com/flip_se e Instagram (https://instagram.com/flip_se/).


As impressões de Boris Fausto

Aos 84 anos, o historiador Boris Fausto propôs-se a falar sobre Brilho do Bronze, livro de memórias em que narra seu processo de luto após a morte da mulher, a educadora Cynira Stocco Fausto, com quem foi casado por 49 anos.

Ao longo do debate, no entanto, as reflexões sobre morte, doença e dor deram lugar aos apontamentos do intelectual sobre o ofício de historiador, alguns episódios da história do Brasil e especialmente a atual conjuntura política do país. Falando sobre problemas do PT – cuja cúpula trabalha hoje, segundo ele, “num sistema de gange” – e desafios da oposição, Boris foi muito aplaudido.

Boris Fausto
“O problema da oposição é não ter sabido ser oposição, não ter tido a coragem de ter dito: ‘sim, nós pensamos de outro modo’, de ser um partido da classe média que tivesse coerência nas suas atitudes. Que tivesse introduzido o favor previdenciário no governo Fernando Henrique e que tivesse votado a favor do favor previdenciário mais adiante.”

Fausto lembrou a escrita de seus livros anteriores, como O Crime do Restaurante Chinês, Negócios e Ócios e História do Brasil, referência para estudantes de várias gerações; elogiou os livros de história desenvolvidos por alguns poucos jornalistas, como Elio Gaspari e Lira Neto, capazes de alinhar pesquisa e grande narrativa, falou ainda de suas lembranças de uma São Paulo que já não existe, com “o bonde, a biblioteca municipal, o futebol não tão profissionalizado em que alguns ainda jogavam pela camisa”. Na cidade de hoje, diz, já não se reconhece.


FlipMais
Um debate sobre preço fixo do livro e concorrência entre livrarias de diferentes portes e gigantes da venda online ocorreu na mesa-redonda que abriu a programação da FlipMais, na Casa da Cultura. A segunda atividade foi o “Poesia em movimento: Cleonice Berardinelli”, episódio da série do Philos TV em que a maior lusitanista brasileira lê poemas de Mario de Sá-Carneiro. Na sequência, foi a vez do espetáculo “Criaturas de papel”, do Grupo Bricoleiros — parte da programação do Palco Giratório do Sesc. Formas geométricas tomaram vida no decorrer da encenação e se transformaram em peças cênicas. A programação foi encerrada com uma apresentação que ocupou a Capelinha de Paraty, na atividade “Poesia à capela”, realizada em parceria com o British Council. Saiba mais em https://blogdaflip2012.wordpress.com/2015/07/03/flipmais-estreia-com-espetaculos-e-debate/.

Programações parceiras
Os parceiros da Flip 2015 oferecem uma série de debates, encontros, publicações e sessões especiais sobre literatura cinema, música, teatro e arte durante a Festa Literária em Paraty na Casa Cais, Casa Folha, Casa IMS, Casa Literária Gastronômica Senac/CBL, Casa Sesc, Circuito BNDES Musica Brasilis e da Companhia Carroça de Mamulengos/Petrobras. Saiba mais em www.flip.org.br.

Quem faz a Flip
A Casa Azul é uma organização da sociedade civil de interesse público que desenvolve projetos nas áreas de arquitetura, urbanismo, educação e cultura. Desde as primeiras ações, há mais de vinte anos, vem desenvolvendo uma metodologia de leitura territorial capaz de potencializar importantes transformações no território. Em Paraty, onde a associação se originou, esse processo levou à realização de ações de permanência, com projetos como a Flip, a Biblioteca Casa Azul e o Museu do Território, entre outros.

Patrocínio
A programação da Flip conta com o patrocínio oficial do BNDES, Itaú, Petrobras e apoio do Sesc. É realizada por meio das leis de incentivo à cultura do Governo do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e do Ministério da Cultura do Governo Federal.

Fotos: Walter Craveiro (Divulgação)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

FlipMais: um ponto de confluência da Festa Literária Internacional de Paraty 2015

Pela primeira vez inteiramente gratuita, programação debaterá temas como o preço fixo do livro e terá sessões de teatro e cinema


A programação da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que começou hoje (1/7), transborda os limites da Tenda dos Autores e se espalha pela cidade, encontrando na tradicional FlipMais um ponto de confluência. Marcada pela diversidade, as atividades da FlipMais combinam literatura, cinema, teatro, arquitetura, artes plásticas e políticas públicas, que ocupam a Casa da Cultura de Paraty e, pela primeira vez, a Capela Nossa Senhora das Dores, a Capelinha – tudo com entrada gratuita.

Em todo o mundo, os superdescontos no preço dos livros, realizados sobretudo por gigantes do comercio eletrônico, têm sido apontados como o principal desafio à bibliodiversidade, isto é, à sobrevivência econômica de pequenas editoras e livrarias. Empenhados em uma luta contra a prática, considerada predatória, editores, livreiros independentes e grandes autores como Stephen King defendem a adoção de um preço fixo para o livro, de modo a preservar a concorrência econômica e a diversidade editorial.
 O preço fixo – existente desde 1888, atualmente em vigor em mais de 15 países – tem relevância cultural e poderia ser comparado à luta pela liberação das biografias sem autorização prévia, que teve um importante manifesto lançado na Flip 2007. A Mesa-redonda: Preço Fixo do Livro, que tem apoio do Sindicato Nacional de Editores de Livros – SNEL e do jornal O Globo, é um dos destaques da programação da FlipMais, na quinta-feira (2/7), às 14h30.
 
A mesa, gratuita como toda a programação da FlipMais, acontecerá na Casa da Cultura de Paraty e terá destaques do mercado editorial internacional: o diretor-geral do Bureau International de l'Edition Française (BIEF), Jean-Guy Boin; o presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Luís Antonio Torelli, o diretor da editora britânica Bloomsbury, Richard Charkin, que dirige também a International Publishers Association (IPA), e o presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros – SNEL, Marcos da Veiga Pereira, que defende a prática como uma maneira de resgatar o crescimento do setor no Brasil. Haverá tradução simultânea.
Dois dos poetas que são destaque da programação principal da Flip, Arnaldo Antunes e Eucanaã Ferraz, participam da série Poesia em Movimento, do Philos TV, que terá sessões especiais na programação da FlipMais. Nos programas exibidos, poetas contemporâneos são entrevistados pela cantora e compositora Adriana Calcanhotto. Dois deles estarão presentes para leituras e um bate-papo com o público após a exibição: Arnaldo Antunes e Eucanaã Ferraz. 

Na sexta-feira (3/7), às 16h, Eucanaã Ferraz, que acaba de lançar a coletânea de poemas Escuta (Companhia das Letras), comentará a relação de seus poemas com o trabalho de João Cabral de Melo Neto, bem como a influência de Vinicius de Moraes. Depois do filme, conversará com o público sobre poesia. 
No sábado (4/7), às 16h, Arnaldo Antunes falará sobre seus mais de trinta anos de trajetória poética: dos primeiros contatos com a poesia, por meio das canções populares, à estreia em livro, em 1982, e suas mais de vinte obras publicadas. Antunes também falará sobre a relação entre a escrita de um poema e a composição de uma música. Após a exibição, Arnaldo fará uma declamação de poemas.
No sábado, às 10h30, a inglesa Hannah Silva, poeta e artista performática, encena um pungente espetáculo feminista que une literatura e expressão corporal em Schlock!. Criado durante o festival de poesia de Aldeburgh e encenado pela primeira vez no Brasil, o espetáculo tem chocado plateias e provocado debates sobre sexo, poder, feminismo e o papel revolucionário do teatro.
Homenageado da Flip 2015, Mário de Andrade, cuja vida e obra são marcadas pela luta em nome preservação do patrimônio histórico, arquitetônico e imaterial brasileiro, uma fonte de inspiração para as ações da Associação Casa Azul em Paraty, como o Museu do Território, é parte na programação da FlipMais.
Ainda no sábado, às 14h30, na Capelinha, a mesa Caminhos de Mário: a dimensão antropológica na cultura abordará os 30 anos do tombamento do Litoral Fluminense, a viagem etnográfica O turista aprendiz e a importância da dimensão antropológica na definição de políticas públicas culturais.
Em As gavetas de Mário, que também acontece no sábado, às 17h, na Capelinha, Elisabete Marin Ribas, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo – IEB/USP, serão discutidos os aspectos de funcionamento, preservação e catalogação de um arquivo literário a partir dos 30 mil documentos deixados por Mário de Andrade, entre obras inéditas, cartas e fotografias – um dos maiores acervos do país, a cargo do IEB desde 1968.
Professoras universitárias de vasta experiência em sala de aula, as autoras de Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, que também participam da programação principal da Flip, conversarão com professores, educadores e o público em geral sobre o ensino da história brasileira em nossas escolas. A mesa O Brasil na sala de aula acontece no sábado, 4/7, às 14h30.

Noites de Cinema
Na faixa noturna da programação da FlipMais, haverá as Noites de Cinema, com realização do Itaú Cultural, e peças e espetáculos teatrais, com realização do Sesc.

O filme A Paixão de JL narra a história do artista plástico José Leonilson, que descobriu-se portador de HIV, e será exibido na sexta-feira, às 17h30.

No sábado, às 18h, será exibido Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz, documentário que narra a trajetória de um dos mais influentes arquitetos brasileiros do século 20. Com roteiro e direção de Laura Artigas, neta de João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), e codirigido por Pedro Gorski, o filme conta a história do criador do Estádio do Morumbi e do prédio sede da FAU-USP a partir das lembranças de parentes, amigos, alunos, imagens de arquivo e visitas a seis de suas principais obras, marcos da Escola Paulista.

Na sexta-feira, às 20h30, a Cia. do Relativo, fundada em 2009 com o projeto de trabalhar com as linguagens contemporâneas do circo, apresenta O Descotidiano. No espetáculo concebido e protagonizado por Otávio Fantinato, um dos criadores da companhia, um ser solitário e excêntrico busca, através da desconstrução de seu cotidiano, uma nova motivação para sorrir. Dentro de sua casa, com poucos móveis e sentimentos, ele dá novos significados a objetos do dia a dia. Jornais, xícaras, livros e vassouras são manipulados de maneira inesperada, criando situações cômicas e surreais.

No sábado, às 21h30, a Cia. Dos Bondrés, fundada em 2007, com o objetivo de aprofundar o estudo das técnicas jogo de desenvolvimento da pesquisa de linguagem cênica e a criação de objetos cênicos de manipulação, apresenta Instantâneos. No espetáculo, a companhia investiga em sua encenação o princípio artesanal do Topeng – teatro e dança dos rituais de Bali – e no teatro popular brasileiro, buscando as semelhanças entre as duas linguagens. O espetáculo aborda o ser humano e suas relações através de situações cotidianas.

Os ingressos para a programação estarão disponíveis para serem retirados com uma hora de antecedência no local de cada evento.

Casa da Cultura – rua Dona Geralda, 177
Capelinha – rua Fresca, s/n


Programação completa

Quinta-feira, 2 de julho

14h30 | casa da cultura
Mesa-redonda: preço fixo do livro
Marcos da Veiga Pereira
Luís Antonio Torelli
Richard Charkin
Jean-Guy Boin


16h | casa da cultura
Poesia em movimento: Cleonice Berardinelli


17h30 | casa da cultura
Noites de cinema
A Paixão de JL
Dir: Carlos Nader

20h30 | casa da cultura
Palco Giratório
Criaturas de papel
Grupo Bricoleiros

21h| capelinha
Poesia à capela
Elisa Lucinda
Lemn Sissay

Sexta-feira, 3 de julho

14h30 | casa da cultura
O que se entende por mediação de leitura?
Marta Porto
Rona Haning
Vera Schroeder

16h | casa da cultura
Poesia em movimento recebe Eucanaã Ferraz

18h | casa da cultura
Noites de cinema
A vida começa…
Dir: Tatiana Lohmann

20h30 | casa da cultura
Palco Giratório
O Descotidiano
Cia. do Relativo


Sábado, 4 de julho

10h30 | casa da cultura
Schlock!, uma performance poética
Hannah Silva

14h30 | casa da cultura
O Brasil na sala de aula
Lilia M. Schwarcz
Heloisa M. Starling

14h30 | capelinha
Caminhos de Mário: a dimensão antropológica na cultura
Alexandre Pimentel
Manoel Vieira
Maria Pereira


16h | casa da cultura
Poesia em movimento recebe Arnaldo Antunes

17h | capelinha
As gavetas de Mário
Elisabete Marin Ribas

18h | casa da cultura
Noites de cinema
Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz
Dir: Laura Artigas e Pedro Gorski

21h30 | casa da cultura
Espetáculo: Instantâneos
Cia. dos Bondrés

Domingo, 5 de julho
11h | casa da cultura
Prêmios literários:incentivo e panorama
Marisa Lajolo
Pierre André Ruprecht
Marcia Costa Rodrigues



Programações parceiras
Os parceiros da Flip 2015 oferecem uma série de debates, encontros, publicações e sessões especiais sobre literatura cinema, música, teatro e arte durante a Festa Literária em Paraty na Casa Cais, Casa Folha, Casa IMS, Casa Literária Gastronômica Senac/CBL, Casa Sesc, Circuito BNDES Musica Brasilis e da Companhia Carroça de Mamulengos/Petrobras. Saiba mais em www.flip.org.br.

Flip 2015
A 13ª edição da Flip, que acontece de 1º a 5 de julho, terá Mário de Andrade como autor homenageado.
Quem faz a Flip
A Casa Azul é uma organização da sociedade civil de interesse público que desenvolve projetos nas áreas de arquitetura, urbanismo, educação e cultura. Desde as primeiras ações, há mais de vinte anos, vem desenvolvendo uma metodologia de leitura territorial capaz de potencializar importantes transformações no território. Em Paraty, onde a associação se originou, esse processo levou à realização de ações de permanência, com projetos como a Flip, a Biblioteca Casa Azul e o Museu do Território, entre outros.

Patrocínio
A programação da Flip conta com o patrocínio oficial do BNDES, Itaú, Petrobras, apoio do Sesc e outros parceiros em vias de confirmação. É realizada por meio das leis de incentivo à cultura do Governo do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e do Ministério da Cultura do Governo Federal.