Ex-jogador faz revelações
inéditas: da dependência de drogas à recuperação, do doping à Democracia
Corintiana. Lançamento acontece nesta terça-feira (16/04) a partir das 19h na
Livraria Saraiva do Shopping RioSul
“Demônios
à solta” não são mera figura de linguagem. Eles aparecem logo no título do
primeiro capítulo do livro Casagrande e seus demônios,
tratando daqueles fantasmas que rondam a vida de uma pessoa em desequilíbrio
físico e emocional. Os “demônios” ilustram bem a reviravolta na vida de Walter
Casagrande Júnior, que foi de ídolo do esporte a viciado em cocaína e heroína.
Casão, ex-jogador do Corinthians, querido da torcida, integrante da Democracia
Corintiana junto com Sócrates, também jogou pelo Flamengo e atualmente é comentarista da TV Globo. Ele expõe sem firulas ao
jornalista Gilvan Ribeiro, coautor do livro, todo o seu declínio e
restabelecimento.
Ricamente
ilustrado, com um caderno recheado de fotos, a publicação tem apresentação de
Antônio Prata, que se declara um admirador de Casagrande, e prefácio de Marcelo
Rubens Paiva, amigo de sempre, que endossa a hipótese de que tantas coisas
boas, e outras tantas ruins, que permearam a vida do ex-jogador dariam um bom
roteiro para um livro. “Casão faz questão de contar o inferno que viveu quando
era viciado em drogas e sua internação, pois para ele é fundamental passar
adiante a experiência, dividir as dores da dependência e alertar para os
perigos de um vício frenético, sem preconceitos, desvios ou mentiras. A verdade
ajuda a sanidade”.
Na
publicação, Casagrande faz revelações inéditas como, por exemplo, o doping que
sofreu quando jogava na Europa. Mas foi na Europa que, em quatro situações,
Casagrande foi obrigado a se dopar pelo clube em que jogava. Tomou uma injeção
de Pervitin no músculo. “Isso realmente melhorava o desempenho, o jogador não
desistia em nenhuma bola. Cansaço? Esquece... se fosse preciso, dava para jogar
três partidas seguidas”, conta. No entanto, o jogador era radicalmente contra o
doping e se negou a continuar fazendo uso da droga. Foram oito anos na Europa,
até ele voltar a atuar no Brasil.
O amor pela música
Mas
Casagrande
e seus demônios, como a carreira do próprio jogador, vai bem
além das drogas. Fã de rock – especialmente de Janes Joplin e AC/DC –, é amigo
de roqueiros nacionais, como Rita Lee, a quem dedicou o “Gol Rita Lee”, no
segundo jogo do Corinthians pelo Campeonato Paulista de 1982, contra o São
Paulo. "O Casagrande foi o jogador e é o comentarista mais rock ‘n’ roll
da história do futebol brasileiro", diz o publicitário Washington Olivetto
na quarta capa do livro. Ao comentar que o lado roqueiro fez com que muitos
jovens se identificassem com o atacante corintiano, Olivetto diz que Casagrande
“é o precursor de um personagem que começou a se materializar fortemente na
Europa a partir do Ronaldo Fenômeno. É o que eu chamo de futpopbolista,
cruzamento de jogador de bola com ídolo do pop”.
Casagrande
via seu cotidiano sempre em evidência, não só por ser um ídolo no clube e na
seleção brasileira, e por sua atuação política. Na época da ditadura militar,
mantinha longos cabelos despenteados, usava jeans puídos e camisetas com
slogans políticos. Desde menino, Casão fixava sua atenção nos rumos dados pelo
governo, era contra a prisão arbitrária de oposicionistas ao regime, filiou-se
ao PT quando o partido ainda era uma legenda nova – e é lulista convicto até
hoje. Foi, então, com naturalidade que fez parte da Democracia Corintiana –
termo batizado por Olivetto –, encabeçada pelos jogadores Sócrates, Wladimir,
Zenon. Para além da autogestão implantada no clube, em que jogadores, comissão
técnica e diretoria tinham poder de voto, os esportistas usavam camisetas em
que exibiam apelos políticos, como Diretas-já.
Amizade com Sócrates
O
livro apresenta também um capítulo inteiro dedicado à afinidade que Casagrande
tinha com Sócrates. Ironicamente, os dois se viram envolvidos com o vício –
Casagrande com as drogas, Sócrates com o álcool. E por conta dele, o Magrão,
como Casa chamava o amigo, cometeu diversos deslizes, a exemplo de chegar duas
horas atrasado no casamento em que era padrinho. “Não concordo com muitas
coisas que o Sócrates fez, ou até mesmo deixou de fazer. Acho que lhe faltava
flexibilidade para usufruir a própria genialidade na plenitude. Ele poderia ter
tido influência no país de modo muito mais efetivo”, analisa o jogador. A
ruptura aconteceu quando Sócrates insinuou que Casagrande havia se “vendido ao
sistema” ao aceitar o trabalho na TV Globo. Sem bate-boca, os grandes amigos se
afastaram. Só voltaram às boas quando Magrão foi internado com hemorragia
digestiva – que o levou à morte em seguida. “Ainda bem que nos reaproximamos no
final da vida dele. Senão, a dor seria insuportável”, t estemunha no livro. No
Diário de S.Paulo publicou um texto em que contava sobre essa amizade tão
importante. Suas últimas palavras: “Tínhamos uma estreita aliança... Vou jogar
meu anel fora. Fazer o que com um anel pela metade?”. ![]() |
| Gilvan Ribeiro e Casagrande (Ricardo Matsukawa / Terra) |
Gilvan
Ribeiro, que é amigo antigo de Casagrande, diz que a revolução na vida do
craque “é uma história sem fim”. E que o ex-jogador “colhe os louros do nocaute
sensacional sobre as drogas”, mas que ele precisa estar sempre alerta para não
voltar a ter uma recaída. No último capítulo, “Casão por ele mesmo”, o ídolo
rememora sua turma de amigos de adolescência, a Turma do Veneno, fala com
emoção sobre a conquista do mundial do Corinthians no Japão – e sobre seu papel
de torcedor durante a transmissão pela TV –, conta sobre seus fracassos
amorosos – “O término de um relacionamento é um tipo de morte, em que a vida em
comum deixa de existir” –, discorre sobre seu dia a dia no apartamento em que
mora sozinho pela primeira vez, e afirma que ninguém deve ficar no
“meio-termo”, todo mundo tem de viver por completo. Como ele mesmo faz.
Sobre
o coautor
Gilvan
Ribeiro nasceu em Bauru (SP), no dia 31 de dezembro de 1964, e iniciou a
carreira de jornalista na Folha de S. Paulo, em 1987. Trabalhou como repórter
da ESPN/Brasil de 1994 a
1998. Está no Diário de S. Paulo (antes, Diário Popular) desde 1992 e,
atualmente, é editor do caderno de esportes.












































