Bióloga brasiliense Nurit Bensusan dá
início a novo projeto de popularização da Ciência. Autora acaba de ser
homenageada com Ziraldo, na 8ª edição da Festa Literária de Pirenópolis
As árvores retorcidas e a vegetação
rasteira típicas do Cerrado serviram de inspiração para o novo trabalho da
bióloga Nurit Bensusan. Mais do
que retratar paisagens, a obra Cerrado:
bioma Torto? estimula a reflexão de crianças e adolescentes sobre a
desvalorização do segundo maior bioma brasileiro, que possui taxas de
desmatamento maiores que as da Amazônia. Da editora
Mil Folhas e Três Joaninhas, o livro é o segundo de uma série de títulos
com temáticas ambientais, que se iniciou ano passado, com o livro da mesma
autora, Dividir para quê? – Biomas do
Brasil.
O lançamento será no próximo dia 10 (sábado), às 17h, no café Objeto
Encontrado, na Asa Norte (DF). O evento é aberto ao público e contará com a
presença do músico Marcello Linhos, que irá apresentar músicas de seu novo CD,
Violinha Caipira, todas inspiradas no Cerrado.
Ao preencher lacunas deixadas por
materiais didáticos, Nurit Bensusan conta que seu mais novo projeto consiste em
explorar, de forma interessante e instigante, temas específicos que dialoguem
com os seis biomas brasileiros. Nas 32 páginas do livro são apresentadas
"as várias caras do Cerrado" por meio de curiosidades e referências
socioculturais esmiuçadas em uma linguagem simples e bem humorada, com
ilustrações divertidas do escritório de design Grande Circular.
"Ao iniciarmos esta sequência de
cinco obras, buscamos retratar especificamente o Cerrado porque, coitado, além
de ninguém dar bola para ele, não há obras desse tipo para as crianças. Nossa
intenção é suprir essa lacuna e, claro, aprofundar o tema por vivermos em
Brasília, região mergulhada no Cerrado.", comenta a autora, que antecipa
conteúdos voltados para os mares, as florestas, a agricultura e a domesticação
de espécies nos próximos livros da coleção.
Bioma azarado
Retratado pela pesquisadora como
"um bioma azarado", o Cerrado, apesar de ser a origem das bacias
hidrográficas do Prata, São Francisco e Tocantins-Araguaia, e possuir mais de 4
mil plantas exclusivas, não recebe, segundo Nurit, a atenção devida da
sociedade. Doutora em Educação e mestre em Ecologia, a escritora questiona a
percepção de como enxergamos o Cerrado, o que impacta sua conservação nos
estados da região Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e
Distrito Federal), além do sul do Pará e Maranhão, interior do Tocantins, oeste
da Bahia e Minas Gerais, e o norte de São Paulo.
"Mesmo ele sendo esse bioma super
especial, com a maior diversidade de árvores do mundo, o Cerrado teve o azar de
estar no Brasil, um país rico em belezas naturais e que possui outros biomas
que roubam a atenção. E como as pessoas não são educadas para ver beleza no
Cerrado, por ele ser um 'bioma torto' e tido como feio, essa percepção acaba
atrapalhando sua conservação", afirma. "E isso é tão gritante que a falta
de importância dada ao Cerrado é sinalizada até mesmo em nossa Constituição
Federal, que diz que a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica são patrimônios
nacionais, mas o Cerrado....".
Muito além dos ipês
Conhecidos por sua exuberância, os ipês
e os flamboyants ganharam status de novos símbolos da Capital, com direito a
campanhas sazonais de registros fotográficos. A bióloga vê com preocupação a
tendência da "conservação do belo" em meio ao avanço da agricultura e
da pecuária, ameaças predominantes na região Centro-Oeste.
"Os flamboyants estão presentes em
mais de cem países, mas em Madasgascar, onde ele é nativo, praticamente não
existe mais. Então, quando vemos flamboyants por aqui, vemos apenas um lembrete
de um bioma que não existe mais e é esse risco que a gente corre com o Ipê.
Esta é uma árvore que está cada vez mais ameaçada por ter uma madeira que vale
muito dinheiro e, como a floração dela é chamativa, ela é facilmente achada e
explorada, levando em mais de 60 anos para se regenerar.", exemplifica.
Finalista do prêmio Jabuti em 2013,
Nurit Bensusan também revela em seu oitavo livro infanto-juvenil os primeiros
habitantes do Cerrado, os tipos de vegetação, bichos e plantas peculiares do
bioma, além da influência deste no dia a dia dos brasileiros. A pesquisadora
destaca ainda a importância desse tipo de savana, que trocou o exagero da fauna
pela flora em relação às demais, para a regulação do clima e a manutenção de
espécies diversas. E faz um alerta: as taxas de desmatamentos do Cerrado são
maiores que as da Amazônia.
"A proteção do Cerrado, em áreas
de conservação, é outra medida que mostra a pouca importância que esse bioma
tem. Somente 8,3% dele estão dentro de unidades de conservação. Esse total não
é suficiente para manter a biodiversidade do Cerrado, principalmente porque,
fora desses espaços protegidos, a destruição total tem sido a regra",
aborda a obra.
O Cerrado é Flicts
Na ocasião da 8ª edição da Festa
Literária de Pirenópolis (Flipiri), Nurit Bensusan foi homenageada juntamente
com Ziraldo, no último dia 18, durante conferência sobre Literatura e Natureza.
Ao antecipar a apresentação do livro Cerrado: bioma Torto?, a escritora
aproveitou a presença do grande ídolo do público infantil para brincar com o
tema em alusão à história de Flicts, obra de Ziraldo, que aborda uma cor
diferente que não se encaixava no arco-íris. "Foi engraçado e conveniente
fazer esse paralelo. O Ziraldo gostou bastante da minha adaptação, mas ao
final, eu tive que dizer que apesar de flicts ter um lugar especial, porque a
lua é flicts, eu espero que o lugar especial do Cerrado não seja na lua",
conta.
Serviço:
Data: 10 de dezembro de 2016 (sábado)
Hora: 17h
Local: CLN 102, Bloco B, Loja 56 (Asa Norte)
Classificação: livre
Valor do livro: R$ 40,00